Saber livre

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22/9/06

Palhaço - Verdade e Liberdade

                            

                                   

Bem, não poderia deixar de contar uma experiência show de bola que tive hoje no Congresso de Engenharia de Entretenimento. Tivemos uma Oficina de Palhaços com o grupo Marias da Graça (www.asmariasdagraca.com.br).

Foi muito interessante, primeiro rolou um aquecimento, e desde o início ia ficando clara a importância de nunca tirar o olho do público ou de algum fenômeno diferente que estivesse acontecendo (algum barulho, uma interferência externa, etc). O palhaço sempre respeita a platéia, então sempre está dirigindo a ele sua atenção, ou então observa e pontua quando algo estranho acontece.

As facilitadoras do grupo primeiro pediram que cada participante da dinâmica subisse ao palco e colocasse uma máscara. Lá éramos sabatinados, e aquela máscara tinha um duplo efeito: esconder a máscara que nós carregamos no dia-a-dia (já falei sobre isso em outro post), e deixar o ser livre para o ridículo, para o lúdico, e porque não, o verdadeiro.

Na sabatina delas havia perguntas esdrúxulas, e a cada momento elas pontuavam alguma característica que o palhaço precisa desempenhar, dentre os quais:

1 - Entrar no palco no momento correto, e observando toda a platéia;

2 - Sinalizar com o olhar quaisquer interferências no espetáculo;

3 - Ser verdadeiro. O palhaço não mente, porque a verdadeira graça do espetáculo está na veracidade de sua história. Quanto mais o público reconhecer no palhaço a sua verdade, mais ele se identifica com o espetáculo, com o palhaço. E aí se instala o espetáculo, pois na verdade o palhaço é uma transferência do ridículo daquele que o assiste. O processo só se sustenta com a verdade. O teórico Lecoq observa que "buscar o clown é buscar a própria derrisão, o próprio ridículo. O ator deve descobrir em si a parte clownesca que o habita. Menos ele se defende, menos ele tenta representar um personagem, mais o ator se deixa surpreender por suas próprias fraquezas, mais seu clown aparece com força”.  Diferentemente do ator, o palhaço não representa, ele é! No trabalho do clown não existe a famosa quarta parede do teatro. No trabalho clownesco há um trânsito intenso entre palco e platéia.

4 - Reverenciar o público quando ele ri do espetáculo. E aí fica uma lição: o público não ri do palhaço, mas ri com o palhaço, dado que o ridículo ou cômico que gerou a risada é propriedade daquele que ri, dentro do seu constructo interno de que aquilo é ridículo. A grande sacação é que o público na verdade ri o tempo inteiro de si mesmo, e isso é catártico.

5 - Quando o palhaço erra, o público bate palma. O erro é a alma do espetáculo do palhaço.

6 - Ao despedir-se do público, ele deixa o palco aos poucos, sempre observando a todos, e deixando alguma simbologia na mente daqueles que assistiram ao espetáculo.

Bem, ficam então alguns aprendizados com nossos amigos palhaços: palhaçada é coisa séria. Quando rimos do palhaço, estamos rindo de nós mesmos e nos perdoando por nossos erros e tristezas. Também fica a metáfora do errar, que no palhaço é encarnado como o espetáculo, e por que não, o acerto!

Outro aspecto é a pluralidade, o palhaço faz o espetáculo onde quer que esteja: nas ruas, no picadeiro ou no palco. Ele legitima a total liberdade de ser, que discuti no post anterior. Ele se mostra sem medo e, assim, mostra a nós todos nossos próprios medos.

Numa sociedade em que somos condenados por nossos erros, porém somos chamados de palhaços por nossa estupidez, ver no clown a ressignificação do erro e do signo do palhaço pode mostrar um caminho de aprendizado significativo.

Palhaços teoricamente são perdedores, frágeis e vulneráveis. Mostram à vontade seus defeitos numa sociedade que nos quer sarados, alisados, contemporaneizados e bem-sucedidos. Os palhaços subvertem a inteligentzia e passam de um erro a outro erro em sucessão. É na derrota que se saem vencedores.

Para Alex Navarro, palhaço e estudioso de clowns, o palhaço quer amor e aceitação, quer ser como os outros, pois assim pensa ser aceito pelos demais (como a criança que quer ser um adulto). Segundo eles todos fomos palhaços, especialmente de um a três anos, pois tínhamos timing, ingenuidade e as mais importantes bagagens básicas do clown de forma natural. Do seu ponto de vista, o clown vem da criança. Se lhe dão um brinquedo caríssimo podem tirá-lo da caixa, deixá-lo de lado e passar horas brincando com a caixa e o envoltório. É o mundo ao contrário do clown.

Fica agora uma questão: palhaços - uma postura de vida ou um escapismo disfarçado? Espero seu comentário.

Abs, André Dametto

criado por andre.dametto    19:23 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por miriam — 28 de agosto de 2009 @ 16:39

    Adorei

  2. Comentário por miriam — 28 de agosto de 2009 @ 16:41

    Adorei…
    Associei esse tema e o que vc escreveu aos professores, muitas vezes nos sentimos meio palhaços em sala de aula.

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