Saber livre

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23/11/08

Equilíbrio e identidade, pintados no meu azulejo

             

              

Trabalho, diversão, quem me conhece sabe que não gosto de dicotomias, e faço de tudo para tornar minha jornada profissional tão gostosa que, de repente, eu até me pego trabalhando… Apesar de já ser a última turma de um ciclo de oito turmas sobre a Lógica da Comunicação, esta teve um gostinho especial. É sempre uma dádiva realizar este casamento do meu diploma de engenharia com meu lado comunicador, psicólogo e diversos outros que nem eu conheço ainda. Mas desta vez teve direito a lua de mel e tudo, e não tinha como acontecer em lugar melhor: São Luis.

Em épocas de dólar alto e um ufanismo crescente, equilibrar o trabalho com o lazer nestas terras foi uma grata surpresa. A cidade eh uma gracinha, vc sai do aeroporto e sente uma brisa morna que faz você ate esquecer da tortura que é viajar de Gol mais de 2km e com escala. As pessoas são muito cordiais, queridas, atenciosas, gostam de dar informação e com aquele olhar carinhoso do qual tanto senti falta nos EUA. Conversando com os nativos eles explicam que esta cordialidade está muito ligada à história da cidade, sempre aberta a influências externas. Primeiramente colonizada por franceses em 1612, depois foi invadida pelos holandeses até que foi tomada pelos portugueses, os quais deram a cara da cidade. Caramba, o que está cidade tinha que todo mundo queria tanto?

Bem, vou explicar: um clima delicioso, onde praias, frutas tropicais e onde se plantando tudo dá… Em épocas de pacto colonial isso aqui devia se assimilar ao contemporâneo Vale do Silício. Tanta diversidade de natureza e cultura deixaram a cidade cheia de sabores. Experimente a pescada com o famoso arroz de cuxá, verdinho e com camarão seco. Para molhar o bico, água de coco ou guaraná Jesus, um refrigerante safado cor de rosa que os locais amam. Tudo regado a muito reggae, som idolatrado por gente de todas as idades. São Luis é daqueles passeios que faz você viajar no tempo e no espaço. Comigo a viagem foi uma coisa ora Brasil Colônia ora Europa Mediterrânea. Vemos em São Luis o melhor e o pior da história do Brasil. Uma arquitetura encantadora de prédios baixinhos, cores pastel, eiras e beiras fantásticas, janelas de todos os formatos, você se sente em Roma fácil. Muitas paredes revestidas de azulejos belíssimos, muitos trazidos de Portugal, explicam o apelido da cidade: cidade dos azulejos. O objetivo era refletir a luz do sol e deixar as casas mais geladinhas, afinal, estamos logo abaixo da linha do Equador, darling. Aliás, isso faz de Alcântara, cidade vizinha, base de lançamento de foguetes e tudo. Tá!

Por outro lado, também vemos aquele descuido com nossa História que me fez questionar pra que serve o título de Patrimônio UNESCO da Humanidade. Cadê a fiscalização, minha gente? Nesta linha crítica, soube que os piores indicadores de Educação no Brasil estão justamente no Maranhão. Por isso digo que aqui vemos também o pior do Brasil Colônia. Como há poucas empresas na região, as pessoas aqui geralmente dependem do Estado, o que perpetua a divisão Casa Grande – Senzala. Há muita gente pobre, geralmente rindo, se divertindo, mas pobre. Por outro lado, alguma gente rica, enfurnadas em castelos sitiados, carros imensos, mas com uma cara de quem não está se divertindo tanto, paradoxal… No Centro Antigo impera um ar de informalidade e tranqüilidade, às vezes interrompido por brigas e gritinhos que terminavam tão logo quanto começavam. Coincidentemente sempre eram hippies mais pra lá do que pra cá, discutindo sobre algo que depois nem eles mesmos pareciam mais se lembrar direito.

Isso tudo cria na cidade um charme surreal de luxo e lixo, então focamos no que dá certo e vamos curtir a cultura maravilhosa que esta cidade me revelou. Na turma to treinamento que ministrei conheci a Lusa, uma funcionária da empresa cliente totalmente “out of the box”. Engraçadíssima, inteligente e cheia de auto-estima, me lembrou muito a tia Milena, com suas frases rápidas, entremeadas pos palavrão, estilo catarse pura. Viajar ao Nordeste é para mim um encontro também com minha história, pois além de ser filho de nordestino quando criança convivi muito com a tia Milena, recifense porreta com a qual aprendi muito sobre foco em resultado, flexibilidade, auto-valorização, enfim, aceitação de identidade. Depois do treinamento saímos para celebrar os aprendizados no Reviver, área de entretenimento da cidade no Centro Antigo. Aqui você encontra as rodas com tambor de crioula, umas mulheres altivas que ficam rodando saia para um lado e para o outro ao som de tambor, e vão se revezando no meio. Bem Lapa! Tem também a lenda do bumba meu boi, segundo a qual uma moça com desejo quer por que quer comer língua de um boi, e alguém la vai e corta a língua do boi, que passa a fazer parte da família. Bem legal a cultura da capoeira Angola, mais musicada e lenta do que o jogo de capoeira tradicional.

Uma vinda a São Luis pede também uma ida aos Lençóis Maranhenses, que visto de cima parece um grande lençol branco de areia pintado com azul e verde das águas formadas pelas chuvas e o Rio Preguiça. Rola uma função de 4h num microônibus apertado até chegar lá, mas é só vc virar criança de novo, se jogar do alto de uma duna e cair naquelas águas para você lembrar que a Vida ainda é bela. Viajar sozinho é algo engraçado porque ficamos suscetíveis, comunicativos, e do nada estamos cercados de BFF – Best friends forever. Encontrei umas cinco pessoas fantásticas, coincidentemente todos professores em diversas áreas, e era muito bom ora rolar dunas, beber cerveja e debater sobre o futuro da Educação do Brasil, tudo junto e misturado, pois como falei, não gosto de dicotomia.

Bem, agora viajo revigorado para São Paulo, sabendo que todas estas experiências fazem parte de mim, enriquecem minha comunicação, fortalecem minha lógica, enaltecem minha visão de equilíbrio, e explicam esta pessoa maravilhosa que vos fala.

Bjs, André Dametto

criado por andre.dametto    18:07 — Arquivado em: Sem categoria

13/11/08

Se fosse mais difícil ficaria mais fácil ser feliz

Uma amiga me dispara a questão: o que esta acontecendo com o ser humano? Como a pergunta estava muito retórica, pedi que ela me explicasse um pouco mais, ao que ela descreve a questão da insatisfação constante do ser humano, e os seus constantes desencontros afetivos e profissionais, por exemplo. Pergunta entendida, porém não trivial. O teor etílico do papo contribuiu para que eu evitasse as racionalizações e teorias complexas, e de pronto, sabe-se lá de onde, tirasse que, por tudo estar tão fácil no curto prazo, fica tudo mais complicado no longo prazo, em qualquer setor da Vida. Ok, você deve estar se perguntando: fácil pra quem cara-pálida?

Confesse, você realmente acha tãaaaao difícil assim encontrar um trabalho? Vamos além, será que é tão complexo encontrar alguém para dividir a pasta de dente? Sinceramente, eu acho que não. Pelo contrário, eu acho que está até fácil demais, quando se fala de quantidade, e não de qualidade. São as mil e uma oportunidades de trabalho desafiadoras descritas nas consultorias de recolocação, muita gente carente “a fim de algo sério”, as “amizades de infância” que se fazem e desfazem num piscar de olhos, a fast foda esporádica que alivia as tensões, as “seletíssimas” opções de marcas de luxo que fazem a classe média se sentir menos mediana, e por aí vai. Por trás desta facilidade toda, um fator fundamental: a tecnologia da informação, que coloca tudo e todos a um clique.

Nunca em nenhum momento da história o ser humano teve tanto acesso à informação. Este “efeito-google” faz com que seja criada uma sensação de democratização da informação, tornando muito fácil o acesso àquelas oportunidades de trabalho, amores, sexo e outros consumos que mais nos confundem do que nos satisfazem. E aí, vemos milhares de pessoas insatisfeitas com os seus pretensos trabalhos desafiadores, gente namorando porque tá todo mundo namorando, páginas de Orkut com 800 amigos que nunca telefonam quando você mais precisa, parceiros sexuais que banalizam o sabor do sexo bem feito, mas tudo muito bem empacotado em grifes, afinal qualquer cara triste fica até chique se os óculos são Dolce e Gabanna. Enfim, se no Google rejeitamos os sites que não nos satisfazem em menos de dez segundos, fazemos o mesmo com pessoas, trabalhos, sentimentos, enfim, com a Vida.

Eu que busco respostas no equilíbrio para as mais diversas questões, entendo que precisamos aprender a usufruir desta facilidade que o mundo das tecnologias nos permite, tendo acesso a informações sim, mas tendo o mínimo de paciência para filtrá-las, saboreá-las, convertê-las em conhecimento, e claro, descartar o que não for útil. Isso tudo me faz lembrar do lema Menos é Mais, da campanha do Slow movement e até mesmo dos 3Rs da sustentabilidade: reduzir, reciclar, reutilizar. A tônica de todos estes conceitos é a mesma: o mundo precisa aprender a valorizar mais a qualidade em detrimento da quantidade. Pode até ser mais difícil, mas paradoxalmente, vai ser mais fácil ser feliz.

André Dametto

criado por andre.dametto    17:07 — Arquivado em: Sem categoria

1/11/08

(In)justiça brasileira

              

Está sendo simplesmente delicioso caminhar pelas ruas do Rio. Dois meses nos EUA me fizeram ver o Rio de outro jeito: gosto de caminhar na rua, ver as caras das pessoas, algumas relaxadas, outras meio tensas, os carros, os ambulantes, nossas cores. Enfim, cada vez que volto pro Rio gosto mais da nossa cidade. Mas como eu falei, nem tudo sao flores. Nem aqui, nem na China.

 

E o motivo deste post é um desabafo: minha ojeriza pelo monopólio que é o Judiciário neste país. Dois casos de pessoas muito próximas a mim mostram que nossa Justiça no Brasil não é apenas lenta, mas também machista e oligárquica. Se tem algo que gosto no capitalismo é a chance de poder comprar algo onde eu quiser, e se eu quiser. O problema é que quando queremos adquirir JUSTIÇA para nossas Vidas, somos obrigados a recorrer a um monopólio que é este Judiciário arcaico. Experimente um dia caminhar pelo Forum aqui no Rio de Janeiro. Eis o retrato desta justica: um emaranhado de corredores, rampas, portas, placas, colocando um jogo do pac man no chinelo de tantos labirintos.

 

Uma pessoa que recorre a justiça está no mínimo fragilizada. Entretanto este é um momento crucial onde se precisa tirar forças nao sei de onde: a escolha errada de um advogado (seja por competência ou ética do mesmo) só aumenta a desesperança do reclamante. Entao fica a licao: ao escolher um advogado, pesquise muito, converse com pessoas próximas e verifique alguém que realmente se comprometa com sua causa, que SINTA na pele aquela dor. Entretanto nem o melhor advogado livra você dos tramites burocraticos e da mente de um juiz, algo tao aleatorio quanto a direcao do bonequinho do pac man.

 

Agora, a pior parte: a parte reclamada. Aqui se aprende na pratica aquele ditado "a corda sempre arrebenta do lado mais fraco". Justamente pela aleatoriedade do julgamento do juiz, é muito fácil para este sobrevalorizar os argumentos do lado mais forte, enquanto o lado mais fraco tem os seus mal interpretados e algumas vezes até desvirtuados. Prefiro nem entrar no merito da "tabela de precos" do Judiciario, algo que simplesmente me causa nojo so de pensar.

 

Enfim, ja que nao temos a quem recorrer, pelo menos liberdade de expressao existe no Brasil, e registro aqui minha profunda decepcao com a Justica brasileira. Sinceramente espero que as novas geracoes redesenhem nosso sistema Judiciario. A base de qualquer democracia é a equidade, e sinceramente, se os ares do Rio me fazem me sentir no 1o mundo, pensar nesta justiça me fazem me sentir no Engenho.

Andre Dametto 

criado por andre.dametto    23:23 — Arquivado em: Sem categoria
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