4/2/09
O menino que carregava água na peneira - Manoel de Barros
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
.
O menino era ligado em despropósitos.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos

criado por andre.dametto
15:52 — Arquivado em: 

Comentário por Du — 5 de fevereiro de 2009 @ 19:56
…é…quando o sonho encontra a perseverança, nada impede o sucesso feliz!
.abraço
Comentário por Nair Dametto — 28 de fevereiro de 2009 @ 17:56
Esta poesia é sobre um menino que nasceu pra escrever e não o faz, por isso está perdendo seu precioso tempo. Reconduzido pela sua mãe, a “Senhora Literatura”, o rapaz voltou a escrever. E por onde ele fosse, levaria consigo esse oceano de poesia, para que toda gente que dele se aproximasse, pudesse se banhar em suas águas poéticas e mágicas.
André, esse menino também seria você, eu e todas as pessoas que mantêm esse diálogo entre o menino que carrega água na peneira e o menino que carrega um oceano de poesia em seu interior. Então, vamos continuar essa brincadeira de carregar água em peneira, mas sem descuidar da segunda parte, que é escrever…